de mudança

Chegou a hora de dizer adeus a Bristol. Não por desgosto pela cidade - Bristol foi provavelmente o melhor lugar em que já vivemos. Acho que simplesmente gostamos de mudar. Nos faz sentir ainda mais vivos. Daqui partimos pro sul da Inglaterra, com promessas de um clima mais ameno e vista pro mar.

Apesar de empolgados com a nova aventura, não foi fácil seguir em frente. Nas semanas anteriores à mudança, muitas vezes suspiramos de saudades antecipadas. "Será que vamos ser tão felizes lá quanto fomos aqui?". Sabíamos que sim, mas doía partir.

Esvaziar o apartamento foi relativamente rápido - não acumulamos muito nesses últimos dez meses. Um dia antes, desmontamos os móveis e devolvemos as roupas nas malas que trouxemos do Brasil. Nos dividimos na limpeza e jantamos no chão da sala. Naquela noite, colocamos os colchões num dos quartos e dormimos todos juntos.

Tudo o que temos coube numa van. Enquanto minha família esperava no carro, subi pra deixar as chaves no apartamento. Ao abrir a porta, lembrei das centenas de vezes que havia feito isso antes. Era sempre muito bom chegar: o calorzinho, o cheiro de comida, as vozes das pessoas que amo. Mas agora, tudo era vazio e silêncio. Antes que percebesse, lágrimas escorreram pelo meu rosto. Não tive coragem de deixar as chaves. Não quis admitir que nunca mais entraria naquele lugar que aprendi a chamar de casa com o coração.

No trajeto até a nova cidade, minha mente vagava num passado não tão distante. Nos jantares que se estendiam muito depois do fim da comida. Nas manhãs preguiçosas de sábado fazendo planos e ouvindo música. No quarto que dividia com as minhas irmãs.

Antes do anoitecer, já estávamos instalados no novo apartamento. Entre caixas e malas, minha mãe começou o jantar - enquanto a Nina e a Alice arrumavam seus quartos e meu pai montava os móveis. As vozes e o cheiro de comida invadiram os cômodos, e eu percebi que o lugar podia ser outro, mas as pessoas que amo estavam lá. E isso já era o suficiente pra ser casa.

primavera em Bristol

Foram seis longos meses de frio, até que, num sábado de primavera, o calor resolveu aparecer. Começou como um dia qualquer: acordamos devagar, fizemos planos e saímos de casa carregando nossos casacos habituais. Apesar do inverno ter terminado há mais de um mês, as temperaturas baixas insistiam em se estender pela próxima estação.

Quando abrimos a porta da frente, não sentimos vontade de correr de volta pra dentro, ou de se abrigar no carro, ou de fechar o casaco até o pescoço. O vento que tocou nossos rostos foi um vento quente e suave - quase como um carinho. E, de repente, o mundo à nossa volta se tornou mais leve, colorido e cheio de possibilidades.

No centro de Bristol, onde acontecia um festival de música, muitos tiravam a camisa e dançavam animadamente sob a grama. Crianças nadavam no chafariz de roupa e tudo. E o detalhe é que não fazia nem 15 graus. Incrível como damos mais valor ao que é raro. E calor por aqui é raridade. :)

cambridge

Há trinta anos atrás, minha mãe morou em Cambridge. E eu cresci ouvindo histórias de como ela passeava de bicicleta pela cidade, deitava no gramado pra cantar músicas, dividia uma casa com vinte meninas e cuidava de velhinhos queridos num asilo.

Estar lá foi como assistir ao filme de um livro que li muitas vezes. Algumas partes um pouco decepcionantes, do tipo: "Nossa, achei que o gramado era numa floresta." Mas, a maioria do tempo, fiquei maravilhada por enfim tornar real o que imaginei durante anos. E a companhia da minha mãe fez a experiência ainda mais especial.

A sorte é que as coisas não mudam muito na Inglaterra - e Cambridge parece ter parado no tempo. A escola de inglês que ela estudou continua lá, exatamente na mesma casa. O jardim botânico não foi destruído pra dar lugar a prédios. Na rua principal não entram carros, só bicicletas. E pelos canais ainda deslizam barquinhos silenciosamente.

A Cambridge da minha mãe sempre teve um espaço na minha memória, e agora ocupou meu coração. <3