decidir casar

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Sentada no carro, na volta de um almoço de família, olhei pro horizonte e me imaginei vestida de noiva. Noiva? É isso mesmo? Justo eu que nunca sonhei em casar, que meus pais não casaram e que já me considerava casada?

Coloquei a ideia de lado, mas ela insistia em voltar - e eu insistia em a reprimir: "Iana, você e o Dudu já namoram há 13 anos, moram junto há cinco e têm casa pra limpar, cachorro pra cuidar e contas pra pagar. Pra que casar?". Mas não adiantava. Semanas passaram e a ideia de celebrar o amor era cada vez mais forte.

Até que um dia ela escapuliu: “Dudu, e se a gente casasse?”.

Não me surpreendi com o olhar de espanto que ganhei em retorno. Também já esperava as perguntas que vieram a seguir: "mas a gente não é casado?", "mas você quer casar?", "mas pra que casar?". Apesar de já ter me feito esses questionamentos inúmeras vezes, só consegui responder: "não sei...".

E eu realmente não sabia. Estava tudo ótimo do jeito que estava. Não existiam questões burocráticas que justificassem um casamento, nossas famílias nunca nos pressionaram e não pertencíamos a nenhuma religião. Na prática, casar não mudaria absolutamente nada - mas havia uma vontade difícil de ignorar.

Nos próximos meses, conversamos sobre a nossa relação, responsabilidades, planos e parceria. Às vezes, eu tinha certeza que queria casar e acusava o Dudu de não querer - às vezes, ele queria e se confundia por eu não querer mais. A cada conversa, a gente se entendia e se desentendia - e nos fortalecíamos como casal.

Concluímos que casar só faria sentido se representasse algo além do âmbito religioso, social e jurídico - algo de um nível mais sutil. Concordamos que um casamento seria, sim, importante para nos fortalecermos como família. Casar significaria a consagração dessa união que construímos com tanto cuidado, carinho e dedicação.

Olhando para trás, não consigo apontar o momento em que dissemos "sim" um ao outro. Foi um processo conquistado por nós dois. Por um tempo, achei que a forma como decidimos casar desqualificava nosso casamento - "se está sendo tão difícil, será que é um sinal para não ser?". Hoje vejo a beleza e importância de termos vivido essa experiência juntos.

No fim das contas, decidir casar foi bem menos romântico, espontâneo e simples do que eu imaginava. Não teve pedido de joelhos, anel de noivado ou champanhe. Não foi mágico, não foi de cena de filme, nem certeza divina. Mas envolveu muita transformação e amadurecimento - e, o principal, muito amor.

( aquela foto lá em cima foi a que tiramos pro nosso convite de casamento <3 )

minha querida vó

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Desde que me lembro, minha vó era muito: falava muito, saia muito, ria muito. Às vezes, era até demais. Quando a visitava, corria pra acompanhar seu ritmo e acabava sempre esgotada de tanto ouvir suas histórias e passear por aí. Mas, há pouco tempo, ela caiu, quebrou o quadril e nunca mais foi a mesma…

Desde então, ela é muito menos. Não consegue caminhar, precisa de ajuda para quase tudo e sua audição cada vez mais fraca a fez uma senhora de poucas palavras. Seu quarto se transformou em sua casa - com geladeira, máquina de lavar roupa e microondas - e lá ela passa os dias assistindo à televisão.

Essa semana, eu e minhas irmãs fomos ao Rio de Janeiro visitá-la. Por um lado, foi muito difícil vê-la tão fragilizada e recolhida - apesar de estar bem de saúde e muito bem cuidada, é impossível não se entristecer diante da sua desvitalidade. Mas, por outro lado, nunca me senti tão conectada a ela quanto dessa vez.

Na ausência do barulho, do movimento, do batom, do perfume e das joias, restou apenas a minha vó.

Deitada ao lado dela, senti o toque fino de sua pele, tracejei as veias saltadas em seu braço e acariciei os cabelos cortados por ela mesma. Percebi como eu e minhas irmãs herdamos seus traços - e como suas pernas são parecidas com as da minha mãe. Contemplei-a dormindo e vi uma mulher forte, mas que, no fundo, é apenas humana.

E de tudo que já vivemos juntas, nada me comoveu mais que esses momentos em que estivemos em silêncio, de mãos dadas. Ou o sorriso que ela abria quando a gente entrava pela porta. Ou quando olhei em seus olhos e disse que a amava - e ela olhou nos meus e disse: “Eu sei, filha. Eu também te amo”.

Voltei para Florianópolis com o coração apertado e os olhos cheios de lágrimas - mas com a sensação que recebi um presente muito valioso: a minha querida vó.

minha gamela

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Olhei pro bloco de madeira e pensei: não vou conseguir.

Comecei a esculpir com o mínimo de força - já que não ia terminar mesmo... Ao meu lado, 22 mulheres trabalhavam vigorosamente. Eu admirava o progresso delas e fitava meus braços finos - com pena de mim mesma: se eu não fosse tão fraquinha...

Até que um dia, numa tarde de calor absurdo, senti raiva. Raiva do suor, do martelo pesado, da ferramenta desafiada, do barulho enlouquecedor. E bati com força - uma força que nem sabia ter. A cada batida, a raiva crescia e se somava a raivas reprimidas, até explodir em meu peito.

E, no vazio que se criou, nasceu resiliência. Daí em diante, cavei com ritmo e constância até terminar. No fim, ainda sobrou tempo para lixar. Mas preferi assim: torto, imperfeito e com as marcas da minha superação.

(fiz essa gamela em uma semana, durante o quinto módulo do curso de formação em Pedagogia Waldorf.)